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O que fica depois do apito final

Existe um silêncio que só o futebol é capaz de provocar. Ele chega depois do apito final, quando, então, a televisão é desligada, a camisa volta para o armário e, assim, a vida retoma seu ritmo. No entanto, por alguns dias, permanece uma sensação difícil de nomear. A eliminação da Seleção Brasileira, portanto, deixa um vazio que vai muito além do esporte.

Desde o fim da partida, ainda assim, uma pergunta permanece: seria essa derrota também consequência de um processo que, em algum ponto do caminho, perdeu continuidade?

A resposta, contudo, talvez não esteja apenas no jogo. Isso porque grandes conquistas, dentro e fora do esporte, raramente acontecem por acaso. Elas costumam ser construídas muito antes de serem celebradas, com planejamento, continuidade, investimento e identidade.

Ainda assim, o que mais chama atenção não é o placar, mas a forma como o brasileiro se entrega. Durante uma Copa do Mundo de futebol, por exemplo, um país inteiro parece respirar no mesmo ritmo. Assim, as diferenças dão lugar às conversas sobre futebol, enquanto famílias se reúnem e amigos reorganizam suas rotinas para assistir aos jogos.

Além disso, desconhecidos comemoram juntos, mesmo sem se conhecerem. Em um tempo de tantas diferenças, portanto, o futebol ainda produz algo raro: um sentimento de pertencimento coletivo. Talvez, justamente por isso, a eliminação doa tanto.

Não porque perdemos apenas uma partida e ficamos fora da Copa. Mas porque, por alguns dias, deixamos de compartilhar um mesmo sonho. E então surge outra pergunta que permanece com o fim da participação do Brasil no torneio: o que fazemos agora com toda essa energia?

O que fazemos com a esperança de quem vestiu a camisa e, também, com a expectativa de quem acreditou até o último minuto? Além disso, o que fazemos com a emoção que tomou conta das ruas e das casas?

Essa força, definitivamente, não desaparece quando termina a Copa. Ela continua existindo; entretanto, apenas perde o seu destino. Talvez o futebol esteja apenas nos lembrando de algo que ainda carregamos: a capacidade de acreditar em projetos coletivos.

A questão é que essa capacidade, muitas vezes, aparece apenas de quatro em quatro anos, quando, na verdade, poderia fazer parte do cotidiano. Não se pode negar: paixão nunca faltou ao brasileiro, tampouco talento. O que, muitas vezes, nos falta, porém, é a disposição para construir com a mesma dedicação com que torcemos.

O Brasil encerrou sua participação na Copa do Mundo. Mas deixou outra partida em aberto: descobrir onde vamos investir, daqui para frente, toda a esperança que, por algumas semanas, vestiu verde e amarelo.

Luciana Furlan
Luciana Furlan
Luciana Furlan é jornalista, atuou como apresentadora do Sportv por 7 anos e teve passagens pela Record TV, SBT e Premiere Combate.
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