Alceu Valença fala sobre a passagem do tempo, enquanto a ciência ajuda a entender por que alguns anos parecem voar.
Aos 80 anos, Alceu Valença continua olhando para a passagem do tempo de uma maneira particular. Em entrevista publicada em agosto, o cantor falou sobre como passado, presente e futuro estão conectados e contou como uma lembrança acabou inspirando uma de suas músicas.
Durante a conversa, o artista foi questionado justamente sobre como lida com a passagem do tempo. Sua resposta trouxe uma relação entre memória, experiências e diferentes momentos da vida.
“O tempo me transporta para várias épocas”, afirmou Alceu, antes de lembrar uma viagem ao Rio de Janeiro que, anos depois, ajudou a inspirar a música “Samba do Tempo”.
A fala do cantor toca em uma impressão bastante comum. Alguns períodos dão a impressão de ter passado em um instante, enquanto outros permanecem muito vivos na memória.
Uma pesquisa publicada em 2019 na revista Acta Psychologica encontrou um resultado curioso. Entre 473 participantes, lembrar pelo menos quatro acontecimentos importantes nos últimos cinco anos fez esse período ser percebido como mais longo.
Ou seja, aquilo que conseguimos recuperar da memória pode influenciar nossa avaliação sobre quanto tempo passou.
A passagem do tempo na memória
Antes de tudo, existe uma diferença entre o tempo do relógio e a maneira como percebemos esse tempo.
Uma hora continua tendo 60 minutos. Um ano permanece com 12 meses. Ainda assim, podemos guardar esses períodos de formas muito particulares.
Por exemplo, duas semanas de férias podem parecer longas quando lembradas depois. Afinal, elas costumam reunir lugares, pessoas, acontecimentos e situações fora da rotina.
Em contrapartida, períodos muito repetitivos podem deixar menos pontos de referência na memória.
Já em 2026, pesquisadores acompanharam 120 pessoas entre 20 e 91 anos para avaliar como elas percebiam a última década. O trabalho foi publicado na revista Memory & Cognition.
Os participantes mais velhos tenderam a perceber os dez anos anteriores como tendo passado mais rapidamente. No entanto, essa sensação não esteve relacionada à quantidade ou à importância das memórias autobiográficas recuperadas.
O resultado é curioso: a percepção de tempo esteve associada à capacidade de formar novas memórias. Pessoas com menor desempenho nessa tarefa tenderam a relatar uma maior sensação de compressão do tempo.

Isso não significa que mais memórias sempre façam um período ser percebido como mais longo. Pesquisas anteriores chegaram a conclusões diferentes,
Portanto, a memória participa da nossa relação com os anos, mas essa ligação é mais complexa do que simplesmente contar quantas lembranças conseguimos recuperar.
A passagem do tempo e a rotina
A rotina também entra nessa história.
Ao mesmo tempo, muitos dias seguem estruturas parecidas, e fica mais difícil distinguir mentalmente um período do outro. Assim, semanas diferentes podem acabar formando uma lembrança contínua.
A psicóloga Ruth Ogden, pesquisadora da percepção do tempo no Reino Unido, explica que experiências novas e memórias ricas podem fazer um período parecer mais longo quando olhamos para trás. Já fases muito repetitivas podem produzir a sensação oposta.
Por isso, uma viagem costuma deixar uma marca diferente de algumas semanas seguindo exatamente os mesmos horários.
Durante uma viagem, há mudanças de lugares, pessoas, atividades e acontecimentos. Depois, essas diferenças ajudam a criar referências para a memória.
Ainda assim, novidade não significa fazer algo grandioso.
Pode ser conhecer um lugar próximo, aprender uma receita, retomar uma atividade ou simplesmente mudar o caminho de sempre.
Na prática, vale criar experiências que consigamos distinguir quando olhamos para trás.
E a idade?
A ideia de que o tempo acelera também aparece em diferentes fases da vida.
Essa parte da vida pode influenciar essa impressão, mas os estudos recentes mostram que ela não explica sozinha a sensação de que os anos passam mais depressa.
Do mesmo modo, a forma como registramos novas experiências também parece ter um papel nessa percepção.
A percepção do tempo no presente
Até aqui, a discussão estava voltada principalmente para a maneira como avaliamos períodos depois que eles passam.
Uma investigação publicada em setembro de 2026 na revista Consciousness and Cognition acrescenta outra perspectiva: o momento em que percebemos uma mudança na velocidade subjetiva do tempo.
A aceleração apareceu associada à felicidade e à atenção despertada pelo vídeo utilizado no experimento. Já a sensação de desaceleração esteve relacionada ao tédio e à percepção das próprias sensações corporais.
Outro trabalho, publicado em agosto de 2026 na mesma revista, analisou como emoções positivas e negativas influenciam a percepção da passagem do tempo.
Em outras palavras, não precisamos esperar o fim de uma fase para sentir que o tempo mudou de ritmo.
Quando os anos parecem desaparecer
Pensar nisso muda um pouco a maneira de olhar para o calendário.
O girassol traz uma lição simples sobre o tempo. Ele cresce, procura a luz, floresce e amadurece. A gente também muda, mas nem sempre percebe. Até olhar para trás e se perguntar: como o tempo passou tão rápido?
A sensação de que o tempo está correndo não está apenas nos anos que passam. Ela também pode estar na forma como conseguimos reconstruí-los depois.
A impressão de que os anos voam também pode estar ligada àquilo que conseguimos enxergar quando olhamos para o passado.

Por isso, dois anos com exatamente a mesma duração podem parecer completamente diferentes quando revisitados.
Um deles pode trazer lembranças de mudanças, encontros e descobertas. O outro pode surgir como uma sequência de semanas difíceis de separar.
Isso não significa que uma vida cheia de novidades seja necessariamente melhor. Rotina também oferece segurança, conforto e estabilidade.
A questão é outra: quantos momentos conseguimos distinguir quando olhamos para trás?
O tempo continua passando
No fim, o relógio não mudou de velocidade.
O que muda é a maneira como nossa mente registra, organiza e revisita aquilo que vivemos.
Alceu Valença transformou uma lembrança em música. É uma forma de dar significado ao tempo e fazer uma experiência permanecer.
Não podemos controlar a velocidade dos dias.
Podemos, porém, prestar mais atenção às experiências que dão contorno à nossa história.
Porque, quando o futuro virar passado, não serão os minutos que conseguiremos revisitar.
Serão as experiências.
Fontes: Noize; PubMed; American Psychological Association; Memory & Cognition.

