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Gisele Bündchen e o preço das escolhas

Uma decisão da supermodelo sobre trabalho e tempo provoca uma reflexão sobre prioridades e aquilo que realmente importa.

Gisele Bündchen poderia aceitar praticamente qualquer convite profissional que recebesse. Ainda assim, decidiu dizer não para a maioria deles.

Em entrevista recente à revista britânica i-D, a modelo revelou que recusa 99% dos trabalhos que lhe são oferecidos. A razão não está na falta de interesse pela carreira, e sim em uma mudança de prioridades.

Hoje, porém, antes de aceitar um compromisso, ela pensa no que pode perder em troca. Um jogo de vôlei da filha, uma ida ao parque com o filho ou simplesmente um momento em família podem pesar mais do que uma nova oportunidade profissional.

Nesse cenário, a declaração chama atenção porque vem de alguém que passou décadas vivendo justamente o contrário.

Gisele Bündchen acompanhando o filho nos treinos de futebol americano

Divulgação

Quando o sucesso muda de lugar

Gisele construiu uma carreira internacional extraordinária. Ao longo da carreira, trabalhou em diferentes países, protagonizou campanhas, capas e desfiles e também participou do cinema. Em determinado momento, chegou a descrever o período mais intenso de sua trajetória como uma espécie de “roda dos ratos”, em referência à sensação de estar sempre correndo, sem conseguir parar.

Desde então, a lógica parece outra.

Para ela, sucesso deixou de estar necessariamente relacionado a poder, dinheiro e fama. Além disso, Gisele também contou que, hoje, valoriza ter tempo para os filhos, manter bons relacionamentos, ter o necessário para viver e aproveitar os dias.

Nesse contexto, é uma mudança significativa. Ainda assim, existe um detalhe que não pode ser ignorado: poder escolher também é um privilégio.

Na realidade, nem todo mundo pode recusar um trabalho porque precisa da renda. Nem todo mundo consegue abrir mão de uma oportunidade para passar mais tempo em casa. Na prática, para milhões de pessoas, a rotina é determinada muito menos pelo desejo e muito mais pela necessidade.

Por isso, a história de Gisele não deve ser lida como uma receita.

O que essa escolha revela

Ela pode ser lida como uma pergunta: o que você faria se pudesse escolher?

Nesse sentido, essa é uma das partes mais interessantes dessa história.

Não porque todos nós tenhamos as mesmas possibilidades de Gisele. Não temos.

Mesmo dentro das circunstâncias de cada vida, existem decisões que dizem alguma coisa sobre aquilo que consideramos importante.

Por exemplo: aceitar mais um compromisso, ficar até mais tarde, responder imediatamente, assumir mais uma responsabilidade ou dizer sim para não decepcionar alguém.

Ou simplesmente continuar correndo porque parar parece perigoso.

Quem responde rápido parece mais eficiente. Estar sempre ocupado transmite a impressão de importância. Já quem acumula projetos parece estar vencendo.

Só que quantidade não é sinônimo de realização.

Essa pode ser uma das perguntas mais difíceis da vida adulta: quanto estamos dispostos a entregar para conquistar aquilo que desejamos?

Nem todo sim vale o preço

Nesse sentido, existe uma diferença entre ter ambição e viver em permanente estado de conquista.

A primeira pode nos movimentar. A segunda pode nos fazer esquecer por que começamos.

Queremos uma promoção, depois outra. Um projeto, depois outro. Buscamos dinheiro, reconhecimento e visibilidade.

Com o tempo, aquilo que deveria ser um caminho passou a ocupar toda a estrada.

Ainda assim, não há nada de errado em querer crescer.

O problema aparece quando o crescimento exige que abandonemos justamente aquilo que pretendíamos proteger ao chegar lá: tempo, família, amizades, saúde, descanso e presença.

Por outro lado, a decisão de Gisele desperta tanto interesse. Não porque seja possível reproduzi-la, mas porque toca em uma inquietação bastante humana: o que fazemos quando percebemos que algumas conquistas também têm um preço?

Cada vida tem a sua medida

Para algumas pessoas, sucesso pode significar abrir uma empresa. Para outras, conseguir um emprego já representa uma grande conquista. Há quem sonhe com uma casa própria, enquanto outras pessoas lutam apenas para colocar comida na mesa.

Afinal, não existe uma única régua para medir uma vida.

Por isso, a grande questão não é descobrir o que é sucesso para Gisele, para um artista, para um executivo ou para qualquer pessoa que admiramos.

Mais importante ainda, é descobrir o que significa sucesso para nós.

Com o tempo, isso também pode mudar.

O que parecia indispensável aos 20 anos talvez perca importância aos 40. O que ocupava o primeiro lugar pode dar espaço a outra coisa. Algumas prioridades chegam sem aviso. Outras nascem depois de experiências que nos fazem enxergar a vida de outro jeito.

Gisele não está dizendo que trabalhar deixou de importar. Hoje, algumas coisas simplesmente pesam mais para ela.
É justamente aí que sua escolha deixa de ser apenas uma notícia sobre uma supermodelo.

Nesse momento, ela se transforma em uma pergunta que cabe em qualquer vida.

Se você pudesse escolher com mais liberdade, o que colocaria no topo da sua lista?

A resposta pode dizer mais sobre você do que qualquer conquista.

E talvez, no fim, a vida não seja apenas sobre chegar onde queremos.

Também é sobre perceber o que não queremos perder enquanto chegamos lá.

Gisele Bündchen e família

Divulgação

Fontes: i-D Magazine; Folha de S.Paulo / F5; UOL Splash

Luciana Furlan
Luciana Furlan
Luciana Furlan é jornalista, atuou como apresentadora do Sportv por 7 anos e teve passagens pela Record TV, SBT e Premiere Combate. Contato: luciana@revistaamiga.com.br
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